terça-feira, 25 de novembro de 2014

Esse tal do amor...

            Esse tal de amor que todos buscam me irrita, me causa toda aquela náusea, todo aquele asco que vem de vez em vez, quando você encontra algo que despreza com sua alma. Essa busca pelo tal do amor, isso é o que ela me causa. E não pelo fato de se buscar algo tão remotamente provável, mas pelo fato de que ninguém sabe exatamente o que isso é.
            Encontrar alguém que te faça feliz, que te complete, que te faça sentir a plena e mais pura alegria por acordar todos os dias ao lado de uma pessoa completamente descabelada, com os olhos sujos, cara amassada e sabe-se lá o que mais. Então, me pergunto, porque as pessoas julgam o amor pelo tamanho do sofrimento, pela quantidade de coragem que se tem de arriscar, pelas lágrimas derramadas, pelas noites perdidas, pelas coisas que te faziam bem e que foram deixadas de lado para que se possa obter esse tal amor.
            Não, nenhuma dessas pessoas sabe o que é amor, elas não sabem e nem eu sei. Porque para se sentir algo tão magicamente completo e belo, é preciso se permitir esperar, se permitir ver além, é preciso aprender a aceitar erros, saber que se colocar menor não é amar mais ao outro, é apenas se amar menos.
            As pessoas tem tanta pressa em encontrar algo que as preencha que se jogam no primeiro poço, que tentam e tentam e acreditam que errando vão conseguir acertar, mas a pressa por prazer, por carne, por ter com quem dividir o mínimo que seja de suas próprias aflições os fazem apenas chegar ainda em vida ao fim para qual nós todos estamos destinados, a eterna solidão.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Então...

            Sabe quando aquele cara, aquele, é... Aquele que você havia decidido ser O cara, a quem você dedicava seus melhores minutos do dia, aquele por quem você abriu mão de viver, abriu mão de sair, de ter vida própria, aquele que você imaginou te fazer feliz.
            Sabe quando aquele cara, que te trouxe flores, que te apresentou a todos os amigos, a toda a família, que te levou a todos os lugares e te olhava como se admirasse uma pedra preciosa e se gabava por poder mostrá-la a todos.
            Sabe quando aquele cara, o que iria te dá ou até deu filhos, que te falou de uma vida juntos, que te falou de casamento, que te falou de amor verdadeiro, de amor pra vida toda, aquele que jurou não mentir, não te magoar, não te fazer chorar, que jurou ficar sempre ao seu lado.

            Sabe quando aquele cara, é só um cara, então...

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Like a girl

           Não é sobre vestidos ou saltos altos que te colocam gentilmente como uma bailarina. Não é sobre longos cabelos arrumados, ou tintas que enfeitam a pele. Não é sobre tirar cada fio de cabelo que desarrume o corpo, não é sobre unhas bem feitas. Não é sobre bucetas cheias de sangue, não é nem mesmo sobre útero.
            É sobre poder ser o que quiser, sobre ser quem quiser, sobre poder escolher, sobre ter voz, ter amor, ter coragem e ainda ter energia ao fim de tudo. É sobre um carinho que só quem sente pode falar, é sobre não precisar ser entendida pra ser aceita, é sobre ser de si mesma, sobre querer muito mais, sobre poder querer mais e saber que pode alcançar.
            É sobre cuidado, sobre carinho, sobre atenção, sobre respeito, sobre ver além, sobre amor, na sua mais perfeita descrição, é sobre ser mulher.

sábado, 9 de agosto de 2014

Engarrafamento

            O tempo passa de forma ainda mais homeopática, cada girar de roda, cada um dos milhares de desconhecidos presos nesse desgastante engarrafamento, pensando em tudo que há de se fazer, como, talvez, estão perdendo tempo, parados e trancados dentro de seus carros, como se fossem jaulas a espera de andar mais um pouquinho em busca do tal jantar, do trabalho, do sexo casual em qualquer esquina.
            Eles não notam que não perdem tempo em seus carros, perdem tempo mesmo é a cada dia que vão para aquele trabalho odioso e cruciante, quando andam de mãos dadas com alguém que não é de fato importante, que perdem tempo por omitirem seus sentimentos, perdem tempo por viverem nessa mania de outono, rosto virado para o lado, com olhar perdido em busca de algo que talvez nunca encontrem, pois não prestam de fato atenção, só sobrevivem sem muita esperança do que realmente possa significar isso tudo.
            Talvez fosse essa a hora de notar que suas vidas andam tão paradas quanto as rodas de seus carros, presos nessa longa estrada, hora de perceber que o tempo está passando e é mais que chegada a hora de viver, viver intensamente, buscar um sentido pra o sorriso nosso de cada dia, buscar um amor, buscar um bom livro, buscar olhar as paisagens ao redor, buscar, com todas as suas forças, talvez, ser feliz.

sábado, 26 de abril de 2014

Das coisas que calei

Querida F.,

            Talvez querida não seja a palavra mais adequada a esse momento, mas precisava chamá-la de alguma forma. Sinto por escrever esta carta como se tudo fosse muito natural, mas algumas coisas precisavam ser ditas, pois ao arrumar minhas lembranças, achei uma caixa empoeirada, dentro dela havia todas as coisas que omiti ou oprimi por sua causa.
            Primeiramente, gostaria que soubesse que me dói muito saber que nunca me amou o bastante do jeito que sou, mas apenas a farsa que criei pra te agradar. Nunca deixei de tentar te fazer sorrir, nunca quis te magoar e sempre evitei ao máximo isso, mas você nunca notou, ou fingiu não vê meu sofrimento. Impôs-me de formas brutalmente psicológicas como eu deveria agir, passei tanto tempo interpretando por você que cheguei a me esquecer por um tempo de mim.
            Segundo, me dói ainda mais saber que tem esse pensamento errôneo, machista, medieval e que em nenhum dos seus pensamentos vem a minha felicidade. Nunca ligou o quanto sofri, o quanto chorei, o quanto fui forte por você, pensou apenas que era sua vez de se sentir bem, alheia a tudo que eu sentia. Como pode ser assim? Como pode ser tão insensível aos meus sentimentos?
            Em terceiro, sei de muitas coisas escondidas, como fato que desejou minha morte, ou que disse que passaria a me desprezar por não acatar sua vontade, ou ainda, o fato de que eu me arrependeria. Já me arrependo. Arrependo-me de ter me doado a você, de sempre pensar em você antes de mim. Eu poderia ser tão feliz, mas joguei tudo para o alto e no momento em que busquei estar bem você me tratou como se eu fosse um caderno velho no qual você escreveu o que quis, mas quando não havia mais nada a ser escrito ele se tornou inútil, além do que, você não queria mais nada do que tinha anotado e por isso me jogou pra fora de sua vida.
            Nossa relação ou possibilidade de qualquer tipo de aproximação morreu dois anos atrás e eu, ingênua, não quis vê. Pensei que poderia fazer dar certo, mesmo com tantos indícios que não. Mas como poderia eu desistir tão fácil? Na época realmente não sabia, no entanto, isso me custou caro demais. Não pense que vou chorar por nós, porque não posso mais. Já que é pra morrermos, que seja de forma fria, você quis assim e eu vou respeitar sua última vontade em minha vida.
            Um dia, talvez, perceba tudo que fez comigo, espero que não seja tarde demais. Meu corpo aos poucos vai se tornando inerte, meus pensamentos se calando e meu amor por você morrendo. Meu olhar já estava morto, então talvez, você nem venha a notar, mas dentro deles, hoje, há uma tristeza imensurável e você é a maior culpada dela. E eu, vou me calando e definhando enquanto ninguém vem me resgatar.
            Queria que tudo tivesse sido diferente, queria que tivesse me entendido, tentado me amar por mim, queria que tivesse sido o que fora destinada a ser pra mim, mas sempre agiu distante. Engraçado como não aprendeu nada com a vida, engraçado como a história se repetiu e você interpretou os dois papéis. Engraçado como tudo que digo parece um natural adeus, mas não é.

                                                                       Da quase que sempre sua,

                                                                                                                      P.